A PATRICINHA DA NOVA BETÂNIA*

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Como toda moça da parte chique da Nova Betânia, Fernanda Tanízio falava inglês e espanhol. Era bilíngue – beijava duas línguas ao mesmo tempo… – e criava um animal exótico trazido de uma de suas viagens feitas, por puro filantropismo, a um país subdesenvolvido. Como toda patricinha que se preze, Fernanda acordava tarde e gostava de se sentar com as pernas atrepadas em algum de seus móveis planejados. E, como já foi dito, mesmo falando Inglês e Espanhol, Fernanda, em verdade, não falava mesmo era com ninguém. Exceto com seus amigos da mesma estirpe. Aliás, patricinha é que nem Gafanhoto, só ataca de bando. À noite, com sua turma, Fernanda, com looks trazidos, no mínimo, de Natal e Fortaleza – já que patricinha nenhuma da Nova Betânia compra roupa nas lojas “malhadas” de Mossoró… – saia à caça de rapazes de sobrenome no Sélect Nouveau, Tenda Music Club etc. 

A coisa que mais irrita Fernanda Tanízio é esse hábito que os pobres de Mossoró possuem de se misturarem com os ricos nas

áreas vips das festas… Por só sair de casa no período da noite, e só tomar sol no veraneio em Tibau, Fernanda Tanízio adquiriu uma pela de barroca palidez. Seus olhos verdes e cabelos que imploram para serem puxados deixavam embasbacados os colegas de classe do curso de Fisioterapia da UNP, sobretudo os bolsistas do interior do estado que não estão acostumados com essa “raça de gado”…

Ê boi! Ira! – dizia, aos risos, um aluno de Messias Targino ao ver Fernanda cruzando os corredores da universidade quase à levitar.

É bom que se diga que, antigamente, toda patricinha da Nova Betânia estudava Direito. Só que depois que elas descobriram mais ou menos o que era o Direito, largaram mão. Agora toda patricinha da Nova Betânia estuda Fisioterapia, por três motivos: Lembra Medicina, “Não é ela, mas é mesmo que ser ela” para trabalhar dentro de piscina e vestir branco. A patricinha sabe que cor fechada é artifício de pobre para esconder sujo…

Fernanda Tanízio é do tipo de patricinha que não se preocupa em dissimular. Seu sonho, chegou a dizer a uma de suas amigas mais íntimas, era ser sequestrada duas vezes que nem a filha de Silvio Santos. Seu pai, enólogo e dono de empresa prestadora de serviço à Petrobras, há cinco anos que já separara o dinheiro do resgate.

Fernanda é espírita. Embora confunda Allan Kardec com Mahatma Gandhi…

Mas o que importa narrar é o fato de que Fernanda Tanízio, a “chefinha”, como lhe chama carinhosamente suas amigas, encontrou o amor de sua vida – patricinhas acreditam piamente no amor romântico -, o homem capaz de fazê-la miar sem dar a mordida da gata, Lucas Tomásio, o uquinhas Red Bull, herdeiro de uma famosa concessionária de veículos da cidade.

Fernanda Tanízio conheceu Lucas Tomásio numa festinha privê dada no Garbos Trade Hotel em louvor do aniversário de sua amiga Ellen Damasco. Fernanda, sabendo que o rapaz tinha sobrenome, tratou logo de investir – quase literalmente… -. Para ela, não importava se ao rapaz faltava um membro, o tronco ou era uma mula sem cabeça. Bastava ter um sobrenome. E isso Luquinhas Red Bull possuía.

Como a Alemanha Hitlerista que queria dominar céu, terra e mar, o pai de Lucas Tomásio, tal qual os demais ricos de Mossoró, possui uma casa de praia em Tibau, uma chácara no caminho de Governador de Dix-Sept Rosado, além, também, claro, de uma mansão na mesma Nova Betânia – só não tem casa na árvore… -.

A mãe de Lucas gerencia uma butique no Partage Shopping.

À tardinha em Tibau, no veraneio, Fernanda e Luquinhas passeavam agarrados de quadriciclo, e gravavam seus nomes no interior de um coração nas areias da praia… Logo uniram suas contas no Facebook

Noivaram mês passado.

A notícia, junto a uma poesia de Mário Quintana, saiu na coluna social de “O Mossoroense” com a legenda: “Os Pombinhos da Vez”.

O casamento está marcado para o final do ano. O casal ainda está a procura de um lugar espaçoso para o evento: Mossoró é tão carente de boas opções… – suspira Fernandinha.
Assim que concluir seu curso de Fisioterapia na UNP, 
Fernanda e Lucas irão morar na Bélgica. Lucas pretende expandir o negócio do pai. Fernanda não pretende exercer a profissão: A casa vai consumir todo meu tempo… – diz ela, que levará duas empregadas domésticas de Upanema para lhe ajudar na Bélgica.

Fernanda sonha em ter gêmeos. Um branco e um negro.

Aqui vão meus sinceros votos de felicidade ao casal!

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*Samuel de Oliveira Paiva nasceu em 14/12/1992, é natural de Rafael Godeiro/RN. Bacharelando em Direito pela UERN, aprovado no XV Exame da OAB. Participou da coletânea “Poesia Clandestina Vol. I (2012)”, foi selecionado em concurso de contos promovido pela Big Time Editora, além de já ter contribuído com poesias, resenhas e contos para os jornais Clandestino, Gazeta do Oeste, O Mossoroense e revista Cruviana.

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OBS. No próximo domingo traremos outro conto do mesmo autor.

5 Comentários

  1. As patricinhas imaginam que a plebe imagina que elas cagam chocolate e mijam água de coco.

    Quanto às empregadas, eu conheço as duas:

    Rita Preta de Chico Vaquêiro e Maria de Jesus de Ciça do Mulungu.

    Boa viagem, queridas.

  2. Só faltou colocar: “Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência”. Kkkk. Muito boa.

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