Enquanto vociferam e gastam pobre vocabulário contra o jornalista Carlos Santos (foto), ele responde com textos impecáveis. Reproduzo abaixo um excelente texto sobre a futilidade que reside nas nossas mais abastadas classes sociais.
Como são estúpidos os parâmetros que o grosso da sociedade mossoroense tem adotado, para dimensionar sua ascensão social. Tudo baseado na superficialidade e babaquice do “parece ter”.
Estamos medindo esse novo status nos prédios que sobem, nos milhares de carros que invadem ruas, avenidas e ocupam até calçadas. Naqueles que muitas vezes para subir, precisam descer aos subterrâneos.
Ontem eu tive mais um testemunho do atraso e da distância em que nos encontramos, da inversão de valores e confusão em que nos metemos, em nome do hipotético progresso.
Fuçando livros em um sebo, seu proprietário me fez um relato que fica entre o bizarro e o jocoso. Vamos a ele.
Há algum tempo, esse sebista foi procurado por uma “nova rica”, interessada em comprar “um metro de livro”. Isso mesmo. Não era um título específico, coleção ou tomo de encadernamento especial. Tinha que ser no metro, sim.
Explico, reproduzindo o que ouvi: a deslumbrada precisava preencher um espaço em estante desenhada por sua arquiteta, sendo recomendada a colocar livros com a mesma dimensão estética. O espaço disponível pro “enfeite”? Um metro. Um metro de livros simetricamente alinhados.
Mossoró, até o início do século passado, vivia a influência europeia do movimento conhecido como “art nouveau” – daí nascendo até a corruptela de sua área de prostituição, transformada em “Alto do Louvor”, décadas depois.
Era uma cidade com requintes em roupas, moveis, arquitetura, mas também na cultura, desde o teatro ao hábito da leitura e música. Tínhamos cerca de 100 pianos. E as moças bem educadas tocavam. Eles não serviam apenas de ornamento na decoração.
Falar francês era normal para os jovens de ótima extração. Muitos eram poliglotas. Os janotas transitavam sempre impecáveis e ser rico, em verdade, era transformar dinheiro em bem-estar e referência de conteúdo.
Hoje testemunhamos a “Metrópole do Futuro” exultante com seu “crescimento” baseado em carrões pra exibição, TV de LCD e home-theater na sala do apartamento, gente mal-educada saracoteando ao som de “lapada na rachada” e enchendo sacolas com bugigangas de grife.
Os que se salvam dessa manada são tratados como estranhos e afetados, ou seja, anormais.
Portanto não é por acaso que da atividade produtiva à política, estejamos “dominados” pela ignorância que mesmo rica, não reluz. É opaca ou furta-cor, mas certamente abobalhada e fútil.
Empobrecemos, em verdade, porque na ânsia de ser diferente, a grande maioria é apenas mais um nessa multidão pasteurizada, uniforme, feita em escala industrial: modelo standard.
Faz da aparência a sua essência, da borra cosmética a sua alma. Acredita que Paris é “a cidade luz” por ser muito iluminada; toma Old Parr com Coca-cola, mas preferia um legítimo “Odete”, por ser mais barato.
A propósito, bota uma bicada de Serra Limpa aí, amigo. O sertão é aqui.
NOTA DO TIO – O texto, primoroso, me faz lembrar da ótima letra de Eu Também Vou Reclamar (Raul Seixas), com temática bem semelhante. E, coincidentemente, há um verso na canção que resume bem o que foi escrito acima: “Olho os livros / Na minha estante / Que nada dizem / De importante / Servem só prá quem / Não sabe ler”.
OBS. Se alguém ainda não souber, o que acho difícil, o endereço do blog é www.blogdocarlossantos.com.br.
Respostas de 6
Genial.
Uma Crônica de bom agrado.
Gostaria de lembrar ela “crônica” representa a mais autentica realidade dessas “pobres moças” que nunca leram sequer ALICE NO PAIS DAS MARAVILHAS.
Gostaria de saber se ela escolheu um metro do Tesouro da juventude ou ficou com um metro de Augusto Cury ou escolheu livros com capas coloridas. Ambos são bons, mas cada um com sua essência.
Como diz o poeta.
Esses moços, pobres moços
Oh, se soubessem o que sei..
Realmente primoroso, alíais o que conforta a nós pobres anômalos é saber que mesmo infimamente, ainda resistimos a esta enxurrada de alheados que estão permeando as classes formadoras de opinião de nossa cidade, não dizendo que somos melhores que ninguem claro! mas em se tratando de cultura, nada melhor que ouvir uma boa musica(mesmo que démodé), e evidente um bom livro. Parabéns ao intelecto reporter Carlos Santos e a Vc pela sagacidade de juízo.
Primoroso mesmo. Sei também que existem alguns ‘escritores’ locais que gostam de ser chamados de Machado de Assis mossoroense. e de jornalistas que gostam de imitar seus patrões usando mesmo jargoes que eles usavam isso é só no país de mossoró mesmo
Para essas “socialytes”, seria mais interessante comprar um metro de revista caras, em vez um metro de livros, sejam eles quais forem. Caras, contigo, nova, e outras coisas do gênero combinam mais com essa “classe social” provinciana.
Pobre “metrópole do futuro”!!!
Brilhante… Elogios meus para ambos direto de Palmas-TO.
Nós anormais nem temos o mesmo conceito para com eles com tamanha futilidade…