A IDEALISTA DO ALTO DE SÃO MANOEL*

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Se Havana tem a Sierra Maestra, Pequim a Praça da Paz Celestial e São Paulo a Praça da Sé, Mossoró tem o Alto de São Manoel. Maior dos bairros em tamanho, fica na Zona Leste da cidade, e tal qual ralo de banheiro de motel, tudo desce por ele. Logo se vê que se trata de um epicentro ideológico. Pelo Alto de São Manoel sobe e desce: santo, viado, político… Não há um mossoroense, por melhor que ele seja, que já não tenha sido besta um dia, a ponto de descer o Alto de São Manoel com as alpercatas na mão por um motivo ou por outro…

Como todas as portas dão ao Alto de São Manoel, o sonho de todo caroneiro é morar lá. Se um time é campeão, desce o Alto. Se um vereador foi eleito, desce o Alto. Se se coroa uma Santa, desce o Alto. Se uma menina chegou à menarca, desce o Alto… É Horácio… entre o Bar da Tripa e o Hotel Normandie há mais mistérios do que o que pressupõe a nossa vã filosofia…

Aliás, já que tocamos na matéria, como diria o proctologista, é salutar que passemos a qualificação de nossa musa. Tércia, 22 anos, baixinha do tipo conversível, daqueles que cabem em qualquer canto e que você só precisa desembrulhar na hora de usar, era branquinha, mas tão branquinha, que a gente morria de vontade de dar uma tapa só pra vê-la rosada.

Tal singeleza física em nada combinava com a recalcitrância moral… Tércia estuda Ciências Sociais, à noite, na UERN. É socialista, vegetariana e regionalista. Muito embora, que um nordestino verídico só seja vegetariano em duas situações: quando não tem carne ou quando não tem dente. Mas, vai saber, idealista é bicho que assim que nem puta tem resposta pra tudo na ponta da língua.

Tércia, ainda que seus pais sejam vivos, divide um apartamento com duas amigas e um doido, perto do Bambino´s. O doido estuda filosofia, também na UERN. Estuda não, é matriculado.

Segundo o doido a Filosofia está no mundo, e não no hermetismo de uma sala de aula. Por ser doido era inofensivo, assim, mesmo que as meninas trocassem de roupa em sua frente, ele seguia impassível em sua leitura de Wittgenstein. Logo se vê que era doido. Pois por mais feia que seja a moça nua, ainda é muito melhor do que Wittgenstein.

Todas as noites, Tércia e suas duas amigas, e o doido, aventuravam uma carona ao lado da Delegacia. Sempre que chegava a vez do doido o carro enchia. E lá se iam as meninas, e o doido a pé. Chegava na UERN suado, e nada do professor que, aliás, na UERN só existe no mundo das ideias…

Tércia tinha um namorado. Só o beijava quando queria. E olhe que queria pouco. Quem mandava era ela. O pobre do namorado de tão assustado só falava com a boca virada pro outro lado.

No dia dos namorados, Tércia foi pega de surpresa com um beijo na boca tão grande que o pinguelo da goela ficou sustentado só numa peinha…

— A gente estava precisando desse beijo, não estava meu amor? – indagou, visivelmente emocionado, o namorado. Tércia, de pronto, deu por acabado o namoro. Sentada, degustando sozinha um cachorro-quente do Sebosão – aliás, o Sebosão não serve cachorro-quente, serve buchada de pão – assim refletiu:

— Eu lá quero saber mais de porra de homem! Uns merdas desses que desde a pré-história chupam e cospem a gente que nem um bagaço de cana! Vai pra puta que pariu! Tércia, enquanto tomava uns goles numa noite de sexta-feira no DoSol, assumiu, perante suas duas amigas e o doido, que era lésbica.

— Normal… – disse o doido, que sequer tinha ouvido, já que tudo para um doido é normal. As amigas lhe deram força. E confessaram que também eram. “Podre” é assim, tudo mundo tem, a única diferença reside no aspecto cronológico…

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Tércia tatuou no braço esquerdo os seguintes dizeres em letras miúdas: “Fodam-se os Rosados e sua numeração bregofrancesa de merda!’’

O sonho de Tércia era ser presa, o que nunca ocorreu. Toda subversiva sonha em ter suas ideias transmitidas em horário nobre… Criou um blog, que não deu certo. Culpou os Rosados por terem o monopólio da informação…

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Quando Tércia, as duas amigas e o Doido chegaram no 2º Ofício de Notas pedindo para celebrarem o casamento dos quatro, tornaram-se indescritíveis as expressões dos que ali estavam.

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Se o Direito ainda não abriga tão peculiar situação, os quatro decidiram por colher os frutos da situação fática. Tércia editou normas de conduta para reger o quádruplo companheirismo. Aboliu as vestimentas. Todos só andam nus dentro de casa. O doido ficou responsável por cozinhar, arrumar a casa, lavar louça, fazer as compras e conseguir dinheiro. Tércia e suas amigas ficaram com as tarefas afetivas. Tudo bem divididozinho. O doido não reclamava, até porque era filósofo e não matemático.

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Tércia e suas duas amigas chegaram a um consenso quanto ao doido. Já que ele, na relação, representava o macho e seu nefasto histórico, merecia, logo, ser capado, extirpando assim o secular mal pela raiz.

Um aluno de Veterinária da UFERSA, clandestinamente por óbvio, foi o responsável pela castração do doido.

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É comum, nas noites de sábado, encontrarmos Tércia, A Idealista do Alto de São Manoel, e suas duas companheiras fazendo compras no Rebouças novo, enquanto arrastam pela coleira o doido filósofo capado.

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*Samuel de Oliveira Paiva nasceu em 14/12/1992, é natural de Rafael Godeiro/RN. Bacharelando em Direito pela UERN, aprovado no XV Exame da OAB. Participou da coletânea “Poesia Clandestina Vol. I (2012)”, foi selecionado em concurso de contos promovido pela Big Time Editora, além de já ter contribuído com poesias, resenhas e contos para os jornais Clandestino, Gazeta do Oeste, O Mossoroense e revista Cruviana.