Racionalidades – 12ª edição. (Texto).

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Na última quarta-feira, exercendo meu ofício, estive por volta das 10h30 numa residência localizada na periferia da cidade de Governador Dix-sept Rosado. Era uma casa muito humilde, sem reboco, sem portas nos cômodos, enfim, sem o mínimo de conforto. Fui atendido por uma senhora de tez sofrida, usando roupas bem velhas. Na ocasião pude notar a presença de três crianças, todas sem roupas. O marido, razão de minha visita, estava no rio. Enquanto uma das crianças foi chamá-lo, aquela senhora me relatou um pouco de seu sofrimento.

Ela disse que vive ali com o marido e os filhos, mas que logo terão que sair para um lugar ainda pior, pois não estão tendo condições de pagar o aluguel. Confidenciou que o café da manhã havia sido feijão puro, único alimento que tinha na casa. Acrescentou que os grãos foram doados por um parente que mora na zona rural.

O marido, disse ela, havia ido ao rio para ver se conseguia pescar um peixe para almoçarem. No caso de insucesso da empreitada teriam que comer feijão puro novamente.

Fui ficando comovido à medida que aquela senhora contava seu cotidiano de sofrimento. Falou ainda sobre o filho mais velho, que mora com o pai em Mossoró, um menino que tem muita vontade de fazer um curso profissionalizante, para então conseguir um emprego e tirá-la daquela vida de dor. Infelizmente, continuou a mãe, ele não tem condições financeiras de pagar uma mensalidade, e nem mesmo de comprar o material escolar dos poucos cursos gratuitos existentes.

Na conversa, ela sapecou a frase: “Eu já fui gente, já cheguei a ser amiga de muitas pessoas boas de Mossoró, de viver andando com elas”. Ato contínuo disse os nomes de algumas pessoas bem conhecidas da geografia mossoroense, sempre com um semblante que expressava um quê de boas lembranças.

Sobre uma dessas pessoas ela perguntou: “Ele ainda é vivo?”. Eu respondi que sim. Ela então finalizou: “- Ali é gente boa”, com o mesmo quê de boa lembrança.

(A pessoa a que ela se referiu deve estar nas casas dos 50 anos, o que me levou a pensar por que ela perguntou se havia morrido. Deve ser por que aquela fase de “ser gente” ela vê com demasiado distanciamento temporal).

Enfim chegou o marido, um rapaz aparentemente bem mais novo do que minha interlocutora. Com ele o papo foi apenas profissional. Ele logo assinou o mandado de intimação e então voltou para o rio. No período, contudo, mostrou-se bem simpático. A pressa em voltar era mais do que justificada. Já era quase 11h e ele ainda não tinha pescado nada.

Quando eu estava de saída, a senhora olhou pra mim e disse: “- Se encontrar Fulano e Beltrano diga a eles que mandei lembranças”. “Direi sim. Pode ter certeza”, respondi.

O que mais me comove é saber que aquela família não é a única a passar sérias privações. Situações como aquela eu vivencio rotineiramente. Destaquei este caso pelo desabafo da senhora. No geral noto que as pessoas omitem seus sofrimentos e dificuldades.

Impossível presenciar essas situações de extrema pobreza e não se revoltar com os políticos que desviam dinheiro da saúde, educação, habitação etc. Se não houvesse tanto dinheiro sendo desviado essas pessoas poderiam ter uma vida minimamente digna .

OBS. Foto meramente ilustrativa.

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SUGESTÕES/CRÍTICAS – Esta coluna é atualizada às sextas-feiras, sempre às 04h59. Sugestões e críticas podem ser enviadas para o número 99648-2588 (WhatsApp).

2 Comentários

  1. Tio Colorau fiquei muito sensibilizado com o seu texto, seria possível entregar uma cesta básica a essa família ? eu sou Raniele Costa e meu contato é 9 9119 2928, trabalho na biblioteca Nei Pontes Duarte no centro de Mossoró,se você entrar em contato comigo ficarei muito feliz.

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