Racionalidades – 38ª edição.

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“ÔÔÔ… NADA MUDOU” – Na sexta e no sábado o Brasil viu, atônito, um festival de baixarias no Senado Federal, tudo por causa da eleição do presidente daquela Casa (de recurso?). A tão esperada “nova política” não se apresentou, muito pelo contrário. O que vimos foi a repetição de práticas antigas, onde o anseio popular é o que menos importa.

A TV Senado nos proporcionou ver imagens lamentáveis, de vale-tudo pelo poder, onde o respeito, o decoro e o bom senso foram estraçalhados. E olhe que o Senado Federal é chamado de Câmara Alta, isso pela sua formação, geralmente parlamentares mais experientes e sensatos.

Ao final de toda a algaravia foi eleito como presidente o senador Davi Alcolumbre (DEM-AP), até aquela data um desconhecido, egresso do baixo clero. Aos 41 anos, começou carreira como vereador em Macapá, sob as bênçãos do emedebista José Sarney, com quem rompeu em 2014.

É a versão 2019 de Severino Cavalcanti.

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BOLA FORA – O ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, que é colombiano, disse que os brasileiros, quando viajam ao exterior, são canibais, pois furtam em hotéis, aviões etc. A declaração caiu como uma bomba. Indignação enorme nas redes sociais e no Congresso Nacional.

Ao comentar o assunto na Band News FM, dia 06 de fevereiro, o jornalista Ricardo Boechat arregaçou: “Ladra é sua mãe, ministro”.

Não é a primeira vez que Vélez diz bobagem. Ele também já defendeu que universidade deve ser apenas para a elite cultural.

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JEAN-PAUL PRATES – Pode anotar, o grande destaque potiguar desta legislatura será o senador Jean-Paul Prates, a despeito das “escorregadas” que deu nos dias após assumir o mandato. Prates é advogado e economista, com mestrado em planejamento energético e ambiental nos EUA; e com mestrado na França, na área de petróleo e motores. É um consultor constantemente requisitado por grandes empresas. O caudaloso currículo o tornou bastante influente no meio energético. Um dos grandes quadros do Senado Federal, e, o melhor, representa o nosso estado.

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CONVIVÊNCIA – De uns meses para cá ficou difícil a convivência entre pessoas que defendem espectros políticos diferentes. Foram criadas as chamadas bolhas. Conheço vários que não conseguem “respirar o mesmo ar” de quem defende grupo político diverso do seu, ou seja, não conseguem ficar no mesmo ambiente.

 Segundo o neurocientista americano Joshua Greene, esse comportamento tem explicação na psicologia evolutiva. Segundo ele, o ser humano não conseguiu evoluir para conviver em ambientes complexos. O cérebro se sente bem mais confortável quando estamos em meio a pessoas que pensam como nós. Ele defende essa teoria no livro “Tribos Morais – A Tragédia da Moralidade do Senso Comum”.

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FRASE“(…) falar de dominação da esquerda no Brasil é puro delírio. Guardadas as proporções, trata-se de um mito similar ao da dominação judaica, ao qual recorreu o governo de Hitler”. (Ruy Fausto, escritor, em artigo publicado na revista Piauí, edição de janeiro/19).

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ÍNDIO QUER APITO – Merece nossa atenção especial a atuação parlamentar de Joênia Wapichana (Rede-RR), a primeira índia a conquistar uma cadeira na Câmara dos Deputados. Antes dela, o povo indígena fora representado na mesma Casa pelo Cacique Juruna (1983-87).

Joênia tem um histórico de luta em prol dos índios do Brasil (897 mil, Censo 2010), especialmente na polêmica demarcação da terra Raposa Serra do Sol, uma área de 1,7 milhão de hectares disputada por índios e produtores de arroz. Ela atuou como advogada dos indígenas, inclusive com histórica sustentação oral no STF.

Ela também carrega no currículo o feito de ser a primeira índia a ser aprovada no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), em 1997.

Por sua atuação em defesa dos índios ganhou o Prêmio das Nações Unidas de Direitos Humanos, honraria já concedida a figuras como Martin Luther King Jr. e Nelson Mandela.

Por estas e por muitas outras a parlamentar roraimense merece nossa atenção.

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UM POUCO DE HISTÓRIA RECENTE – Em setembro de 1968 foi divulgado o “Relatório Figueiredo”, que discorria sobre a situação dos índios no Brasil nos últimos 20 anos. A iniciativa foi do então ministro do Interior, general Albuquerque Lima, que destacou o procurador federal Jáder Figueiredo para comandar o estudo, daí o nome.

Após exaustiva pesquisa, foi descoberto um verdadeiro massacre contra o povo indígena: usurpação do trabalho dos índios, dilapidação do patrimônio deles, trabalho análogo ao de escravo, extrativismo ilegal, venda de crianças, maus tratos, espancamento, cárcere privado, estupros, mortes por falta de remédios, torturas etc.

No “Massacre do Paralelo 11”, em Mato Grosso, índios foram envenenados, atacados por dinamites e cortados ao meio, de cima para baixo.

Os índios eram atacados por fazendeiros, donos de mineradoras, políticos locais, tudo em parceria com servidores do SPI, que posteriormente ganharia um novo nome: Funai.

Todas as atrocidades descobertas pela equipe comandada pelo procurador Figueiredo foram datilografadas, resultando num calhamaço com sete mil páginas.

Sabe o que aconteceu com os algozes dos índios? Nada. Os documentos foram arquivados. Estávamos sob o jugo do Ato Institucional nº 05.

Isso é só uma amostra do quanto os índios brasileiros sofreram nas mãos do “homem branco”, um sofrimento que remonta ao início de nossa colonização, quando os nativos não tinham direito nem de professar as suas crenças.

Lamentável, que nos tempos atuais, ainda haja políticos que vejam os índios como insolentes, como seres desprovidos de direito e respeito. O mínimo que o Brasil deve fazer é cuidar para que os índios ainda existentes no país – menos de 900 mil – tenham um mínimo de garantia. Só precisamos deixá-los em paz.

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O QUE ESPERO DE UM VENDEDOR – Não sei você, mas quando vou a uma loja gosto que o vendedor ou vendedora me trate de forma natural, sem frufru. Quero que ele ou ela tire minhas dúvidas e aponte as opções existentes dentro daquilo que almejo. Simples assim.

Sinto-me constrangido quando sou atendido por alguém que age com visível encenação, como um palhaço ou animador que tenta agradar a uma criança, ou mesmo como uma profissional do sexo que finge prazer diante do cliente, guardadas as devidas proporções.

Alguém pode até cair na história do “vai arrasar”, do “é sua cara”, do “maravilhoso”, mas eu prefiro um atendimento natural. Até porque, depois de efetivada a compra, o vendedor logo desmonta sua “fantasia”.

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ACIMA DA MÉDIA – Segundo dados do Ministério da Saúde, 1,6% dos brasileiros já doou sangue. A percentagem é superior a meta estabelecida pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que é de 1% dos cidadãos (e não cidadões) de cada país.

Para entrar no grupo de doadores basta, basicamente, ter entre 16 e 69 anos, pesar mais de 50 kg e estar bem de saúde.

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MAUS-TRATOS – Em 2017 foram registrados 33 mil casos de agressões a pessoas acima de 60 anos. São quatro os tipos básicos de violência: física, psicológica, negligência e financeira. Se souber de algum idoso que está sendo maltratado denuncie ligando para o número 100.

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A NOSSA É MELHOR – Várias matérias jornalísticas já enumeraram as vantagens da dieta mediterrânea, à base de azeite de oliva, cereais, peixe, oleaginosas e vinho. Nos países onde a dieta é majoritariamente adotada, 0,5% da população supera os 80 anos com muita saúde e vigor, o que é razão para ela ser bastante recomendada.

Cientistas da UFMG, contudo, descobriram que na cidade de Maués (AM), essa percentagem é de 1%, ou seja, o dobro. O mesmo acontece com várias outras cidades da região amazônica. Os estudiosos descobriram que a alta longevidade tem a ver com a dieta adotada por esses moradores, a qual eles denominaram de dieta amazônica.

Originária dos povos indígenas, a dieta amazônica é à base de macaxeira (ou cará), guaraná, peixes de água doce, açaí, castanhas e frutas regionais, como tucumã, pupunha, e cubiu, além do azeite de tucumã.

Consumida de forma adequada, a dieta amazônica é bem mais benéfica à saúde do que a dieta mediterrânea. Infelizmente, preferimos valorizar mais a dieta além-mar do que a nossa, tanto é que é difícil encontrar os itens da dieta amazônica nos supermercados Brasil afora.

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CINE-TIO – O filme Uma Noite de 12 Anos, disponível no Netflix, conta a história de três uruguaios que foram torturados e mantidos em confinamento solitário durante doze anos (1972-1984), sendo Pepe Mujica (que futuramente seria presidente daquele país) um deles.

A se basear pelo filme, Pepe Mujica e os demais sofreram o pão que o diabo amassou no período. Torturas constantes, falta de comida, convivência com ratos etc, isolamento quase total. Dá dor só em assistir.

Eu, que já tinha simpatia pelo ex-presidente, passei a olhá-lo com ainda mais admiração, até mesmo comovido pelo seu sofrimento, mostrado na película.

Não entendo como há pessoas que ainda defendam as ditaduras militares. Nada justifica um ser humano ter poder para torturar um semelhante.

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CINE-TIO 2 – Nos início dos anos 2000, o australiano Julian Assange abalou muitos governos com a divulgação de documentos confidenciais no seu site, o Wikileaks. Por ter “mexido” com muita gente grande, Assange passou a receber constantes perseguições, a ponto de hoje viver recluso na embaixada do Equador em Londres, na Inglaterra. O filme O Quinto Poder conta como tudo começou, bem como os maiores feitos do site, responsável por divulgar inúmeros segredos de estado, especialmente dos EUA.

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SUGESTÕES/CRÍTICAS – Esta coluna é atualizada às sextas-feiras, sempre às 04h59. Sugestões e críticas podem ser enviadas para o número 99648-2588 (WhatsApp).

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